quarta-feira, 2 de abril de 2008

Contos: "A SÉ"

Subia de leve as escadas estreitas que me levavam à sé. Das varandas, as gotas de roupa fresca orvalhavam o chão cansado pelo passar do tempo. As pedras eram os pés de centenas de anos que subiram e desceram a sé secular.

Degraus curtos, gastos, velhos e reflexivos, envolvidos em centenas de mistérios vindos dos olhos minúsculos das janelas que caem sobre a viela. Olhos graves, cansados, sobre os transeuntes breves e facultativos.

Subiam de leve os pensamentos: a sé!

Subiam de leve os passos para o encontro desejado: ela estava ali à minha espera.

O relógio lento dos ponteiros acompanhava a monotonia dos meus passos: um degrau gasto, outro partido, outro solto, outro, outro...

E subia! A sé!

De dentro da janela, o ruído do suave som do embalar de uma criança sob o sussurrar de uma canção de infância perdida...

Do outro lado, a velhinha espera o que não pode esperar: a rua é o Universo; o rumo dos transeuntes, a direcção do destino gasto.

E subia!

A curva do cimo da escada aproximava-se lentamente. O relógio quase que parava a sua marcha lenta e infinita do seu maior ponteiro.

A curva desfazia-se, pedra ante pedra.

O largo! A sé!

Lá estava ela: linda, esbelta, imponente!

Lá, ela não estava.

Paulo Costa

1 comentário:

Ricardo disse...

Um pequeno conto muito bonito e assaz interessante.

Muiti criativo e com uma ilustrção belíssima.